Sinto que aquilo que geralmente é descrito como "doomscrolling" não tem me afetado tanto ultimamente. Isso não significa necessariamente que minha percepção sobre o atual panorama cultural eletrônico é mais clara agora. Acredito que a confusão continua a mesma. Mas, sem os efeitos entorpecentes que a (aparente) infinita sucessão de imagens, palavras e sons causa, o que costuma restar nem sempre é fôlego renovado por novas descobertas e conhecimentos. Muitas vezes é apenas tédio. Ou talvez apenas pareça tédio, mas, na verdade, é cansaço.
Com o tempo opiniões se cristalizam, endurecem o humor, marcam mais e mais fundo o perímetro (as barreiras?) do espaço (linguístico? estrutural?) que me situa como pertencente a uma geração em particular. E, dentro desse espaço, eu encontro novas barreiras.
Eu tenho pares que foram determinados ao longo da vida, como acontece com qualquer um. Com alguns, compartilho traumas. Com outros, compartilho sangue, fé. Com meu amor compartilho a vida. São meus únicos tesouros. E todos são diferentes de mim. E por isso mesmo me valem tanto. Às vezes desejo que pensem meus pensamentos. E me sinto só porque isso não é possível. E me sinto sem pares.
Há quem busque a cura para solidão na hiperexposição de si. Há meios eletrônicos que permitem e, aparentemente, premiam essa maneira de (ao menos tentar) encontrar pares. Também há, entre esses meios, aqueles que permitem a vigilância das coletividades, a punição dos que falham em conformar-se a seus espaços (sejam linguísticos, estruturais ou o que for). Me espanta que tudo isso pareça justificável para aqueles que mantêm a situação como está. Faz parecer que qualquer coisa é aceitável se, com sua implementação, o tédio for liquidado. Faz parecer que, se o tédio for liquidado, é aceitável exterminar o que é diferente.
Nada disso precisa definir o panorama eletrônico, as comunidades virtuais, a web e redes sociais. Tudo poderia ser muito melhor. Mas receio que nem todas as pessoas pensem dessa maneira. Há gente enriquecendo enquanto crianças adoecem. Predadores caçam novas vítimas impunemente enquanto monstros acumuladores de dinheiro mergulham em delírios escatológicos, espaciais, submarinos, coloniais e demais fantasias.
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