quarta-feira, 29 de julho de 2026

Crônica - 20251002

Ultimamente me chegam conteúdos que sinto que seriam interessantes para um eu bem mais jovem. Algumas coisas não fazem mais tanta diferença quanto antes, o que lamento muito, mas não é desse tipo de interesse que falo agora. Tais conteúdos seriam interessantes para aquele eu mais jovem porque eu era alguém que desejava cultura. Cultura, da sua forma mais sensível e, quem sabe, desinteressada? Receio que não apenas isso. Queria, de certa forma, também transparecer cultura. Ostentá-la, talvez. Me pergunto se esse tipo de desejo corresponde a algum mecanismo (estrutura?) de manutenção de relações sociais, algo mais significativo e, sobretudo, mais forte (condicionado?) do que aquilo a que tenho acesso direto por reflexão íntima. Ainda não conheço psicologia científica o suficiente para afirmar com segurança que transparecer cultura, erudição, habilidade, é desejável socialmente.

Aqui faço um exercício argumentativo: para mim parece razoável acreditar que alguém erudito é mais interessante do que alguém ignorante. Da mesma maneira, parece razoável inferir que um erudito é mais capaz de propiciar um bem à sua comunidade do que alguém ignorante. A presença do erudito, assim, parece mais desejável do que a do ignorante. Esse encadeamento é factível, concedo. Mas, pelo menos para mim, depois de calcular quão fácil seria justificar abusos com base nessa pretensão de razoabilidade, cada passo parece menos razoável do que o anterior.

No entanto, um critério parecido (o mesmo critério?) parece orientar a percepção que tenho do meu próprio valor diante da sociedade. Meu julgamento de mim mesmo não é muito generoso.

O que quero dizer é que acredito que pessoas têm valor simplesmente por serem quem são. Mas sofro de uma disforia que não me permite incluir a mim mesmo nesse esquema. No entanto, tenho lidado com isso através de concessões.

Quando penso sobre responsabilidades, penso em agência. Não posso controlar outras pessoas, mas posso (tentar?) dirigir minhas próprias ações. É meio paradoxal perceber que, ao menos racionalmente, minha percepção sobre a cadeia causal dos meus atos deveria ser privilegiada, mas é mais fácil perceber isso em outras pessoas. É bem mais fácil ter clareza sobre como outros agem. Assim, é bem mais fácil perdoar os outros do que a mim mesmo. Mas tenho feito concessões.

Acho que eu esperava por alguma espécie de “permissão” para poder lidar melhor com esse autojulgamento. Especialistas podem ter esse tipo de autoridade. Assim, como costumo relatar em sessão, não sinto que isso foi um “sucesso terapêutico” verdadeiro da minha parte, mas me serviu muito. Os problemas de sempre, as dificuldades fazem mais sentido agora. Os laudos não apagaram minhas responsabilidades, mas posso compreender melhor aquela cadeia causal. E, no atual estágio do meu tratamento, parece bem mais evidente a ligação entre aquela necessidade de transparecer erudição, a ansiedade por sentir-se socialmente valioso, a disforia de rejeição e as comorbidades que podem surgir daí.

Não estou “curado” de nada disso, mas estou aprendendo a lidar melhor com tudo. Continuo sendo duro comigo mesmo, mas faço concessões. Posso estar errado, posso cometer equívocos, mas posso buscar corrigi-los. E admitir que posso aceitar a mim mesmo da mesma maneira que sou capaz de aceitar aos demais.

Crônica - 20251011

Sinto que aquilo que geralmente é descrito como "doomscrolling" não tem me afetado tanto ultimamente. Isso não significa necessariamente que minha percepção sobre o atual panorama cultural eletrônico é mais clara agora. Acredito que a confusão continua a mesma. Mas, sem os efeitos entorpecentes que a (aparente) infinita sucessão de imagens, palavras e sons causa, o que costuma restar nem sempre é fôlego renovado por novas descobertas e conhecimentos. Muitas vezes é apenas tédio. Ou talvez apenas pareça tédio, mas, na verdade, é cansaço.

Com o tempo opiniões se cristalizam, endurecem o humor, marcam mais e mais fundo o perímetro (as barreiras?) do espaço (linguístico? estrutural?) que me situa como pertencente a uma geração em particular. E, dentro desse espaço, eu encontro novas barreiras.

Eu tenho pares que foram determinados ao longo da vida, como acontece com qualquer um. Com alguns, compartilho traumas. Com outros, compartilho sangue, fé. Com meu amor compartilho a vida. São meus únicos tesouros. E todos são diferentes de mim. E por isso mesmo me valem tanto. Às vezes desejo que pensem meus pensamentos. E me sinto só porque isso não é possível. E me sinto sem pares.

Há quem busque a cura para solidão na hiperexposição de si.  Há meios eletrônicos que permitem e, aparentemente, premiam essa maneira de (ao menos tentar) encontrar pares. Também há, entre esses meios, aqueles que permitem a vigilância das coletividades, a punição dos que falham em conformar-se a seus espaços (sejam linguísticos, estruturais ou o que for). Me espanta que tudo isso pareça justificável para aqueles que mantêm a situação como está. Faz parecer que qualquer coisa é aceitável se, com sua implementação, o tédio for liquidado. Faz parecer que, se o tédio for liquidado, é aceitável exterminar o que é diferente.

Nada disso precisa definir o panorama eletrônico, as comunidades virtuais, a web e redes sociais. Tudo poderia ser muito melhor. Mas receio que nem todas as pessoas pensem dessa maneira. Há gente enriquecendo enquanto crianças adoecem. Predadores caçam novas vítimas impunemente enquanto monstros acumuladores de dinheiro mergulham em delírios escatológicos, espaciais, submarinos, coloniais e demais fantasias.


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Crônica - 20251114

Acho que vi Cristo ontem

Cercado por soldados e brutalizado

E percebi, finalmente, que o mundo não pode me cegar para seus horrores

 

Assim, com Cristo sofrerei todos os dias

Em Cristo morrerei todos os dias

E anunciarei sua ressurreição

 

***

 

Sde Teiman. Prefiro me referir a tal lugar como o que realmente é: campo de tortura, não de mera detenção. Vi as notícias sobre o vazamento do vídeo com mais de uma semana de atraso. O próprio vazamento ocorreu há muito mais tempo, ainda em agosto de 2024, mas o caso voltou ao noticiário porque, no último 2 de novembro, a Advogada Militar Geral das Forças de Defesa de Israel admitiu ter autorizado a divulgação do vídeo.

Em pronunciamento, o Primeiro Ministro referiu-se ao vazamento como um grave golpe contra a imagem de Israel no plano internacional, talvez o pior "ataque hasbara" desde a criação do Estado israelense. Uma curta leitura sobre o termo hasbara revela que esse é o termo utilizado por lá para caracterizar ações e políticas de construção da reputação do país. O termo anterior era "propaganda", mas foi deixado porque essa palavra passou a acumular um sentido pejorativo -- talvez essa conotação/associação seja mais forte na língua inglesa do que na língua portuguesa. De qualquer modo, eu não encontrei qualquer manifestação dele sobre as alegações de abuso e tortura sofridas pelos detentos -- que incluem mulheres e crianças. O que encontrei, sem muito esforço, foram informações sobre as múltiplas vezes em que ele se referiu à população palestina como "selvagens". Os soldados acusados dos abusos, por sua vez, manifestaram-se publicamente após seu indiciamento e afirmaram que o vazamento do vídeo comprometeu a lisura/neutralidade do processo criminal. Nenhum negou os abusos. Se queixaram de que seu processo será parcial, mas não lhes ocorreu negar terem praticado crimes abomináveis, nem mesmo numa época em que alegar manipulação de vídeo através de ferramentas tecnológicas é cada vez mais plausível. Não é difícil concluir que eles simplesmente não acreditam que estão errados. Quão vil alguém precisa ser para ouvir acusações de que seu país tortura crianças e, ao invés de reforçar que as alegações serão tratadas com absoluta seriedade, ao invés de garantir que seu país não viola direitos humanos, ao invés de (pelo menos) tentar sugerir que as evidências foram forjadas, decide respondê-las com queixas sobre relações públicas?

Eu não consigo entender. A maldade dessas atitudes é pior do que banal. Mas não me permito chamá-la de "monstruosa". Fazê-lo não seria muito diferente de (também) me referir a eles como "selvagens" e me refugiar no conforto de ser mais "humano".

É necessário seguir. Sim, predadores vivem entre nós e machucam outras pessoas -- não apenas em zonas de guerra, mas aqui também. O horror não está tão longe, afinal de contas. E isso eu não posso ignorar.

 

***

 

Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 15*

 

 31. Todos os dias, Irmãos, morro (juro-o) pela glória que tenho de vós em Jesus Cristo Nosso Senhor.