Ultimamente me chegam conteúdos que sinto que seriam interessantes para um eu bem mais jovem. Algumas coisas não fazem mais tanta diferença quanto antes, o que lamento muito, mas não é desse tipo de interesse que falo agora. Tais conteúdos seriam interessantes para aquele eu mais jovem porque eu era alguém que desejava cultura. Cultura, da sua forma mais sensível e, quem sabe, desinteressada? Receio que não apenas isso. Queria, de certa forma, também transparecer cultura. Ostentá-la, talvez. Me pergunto se esse tipo de desejo corresponde a algum mecanismo (estrutura?) de manutenção de relações sociais, algo mais significativo e, sobretudo, mais forte (condicionado?) do que aquilo a que tenho acesso direto por reflexão íntima. Ainda não conheço psicologia científica o suficiente para afirmar com segurança que transparecer cultura, erudição, habilidade, é desejável socialmente.
Aqui faço um exercício argumentativo: para mim parece razoável acreditar que alguém erudito é mais interessante do que alguém ignorante. Da mesma maneira, parece razoável inferir que um erudito é mais capaz de propiciar um bem à sua comunidade do que alguém ignorante. A presença do erudito, assim, parece mais desejável do que a do ignorante. Esse encadeamento é factível, concedo. Mas, pelo menos para mim, depois de calcular quão fácil seria justificar abusos com base nessa pretensão de razoabilidade, cada passo parece menos razoável do que o anterior.
No entanto, um critério parecido (o mesmo critério?) parece orientar a percepção que tenho do meu próprio valor diante da sociedade. Meu julgamento de mim mesmo não é muito generoso.
O que quero dizer é que acredito que pessoas têm valor simplesmente por serem quem são. Mas sofro de uma disforia que não me permite incluir a mim mesmo nesse esquema. No entanto, tenho lidado com isso através de concessões.
Quando penso sobre responsabilidades, penso em agência. Não posso controlar outras pessoas, mas posso (tentar?) dirigir minhas próprias ações. É meio paradoxal perceber que, ao menos racionalmente, minha percepção sobre a cadeia causal dos meus atos deveria ser privilegiada, mas é mais fácil perceber isso em outras pessoas. É bem mais fácil ter clareza sobre como outros agem. Assim, é bem mais fácil perdoar os outros do que a mim mesmo. Mas tenho feito concessões.
Acho que eu esperava por alguma espécie de “permissão” para poder lidar melhor com esse autojulgamento. Especialistas podem ter esse tipo de autoridade. Assim, como costumo relatar em sessão, não sinto que isso foi um “sucesso terapêutico” verdadeiro da minha parte, mas me serviu muito. Os problemas de sempre, as dificuldades fazem mais sentido agora. Os laudos não apagaram minhas responsabilidades, mas posso compreender melhor aquela cadeia causal. E, no atual estágio do meu tratamento, parece bem mais evidente a ligação entre aquela necessidade de transparecer erudição, a ansiedade por sentir-se socialmente valioso, a disforia de rejeição e as comorbidades que podem surgir daí.
Não estou “curado” de nada disso, mas estou aprendendo a lidar melhor com tudo. Continuo sendo duro comigo mesmo, mas faço concessões. Posso estar errado, posso cometer equívocos, mas posso buscar corrigi-los. E admitir que posso aceitar a mim mesmo da mesma maneira que sou capaz de aceitar aos demais.