sábado, 19 de março de 2011

Fragmentos das "Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo" de Arthur Schopenhauer (trad. de Wolfgang Leo Maar).

§150
O consolo mais eficaz em toda infelicidade, em todo sofrimento, é observar os outros, que são ainda mais infelizes do que nós: e isto é possível a cada um. Mas o que resulta disto em relação ao todo?
Parecemos carneiros a brincar sobre a relva, enquanto o açougueiro já está a escolher um ou outro com os olhos, pois em nossos bons tempos não sabemos que infelicidade justamente agora o destino nos prepara -, doença, perseguição, empobrecimento, mutilação, cegueira, loucura, morte etc.
A história nos mostra a vida dos povos, e nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz nos parecem apenas curtas pausas, entreatos, uma vez aqui e ali. E de igual maneira a vida do indivíduo é uma luta contínua, porém não somente metafórica, com a necessidade ou o tédio; mas também realmente com outros. Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante luta, e morre de armas em punho.

§151
Também contribui para o tormento de nossa existência, e não pouco, o impelir do tempo, impedindo-nos de tomar fôlego, perseguindo todos qual algoz de açoite. Somente não o faz com aquele que se entregou ao tédio.

§152
Mas, assim como nosso corpo explodiria, se lhes fosse subtraída a pressão da atmosfera, assim também se a pressão da necessidade, dificuldade, contrariedade e frustração das pretensões fossem afastadas da vida dos homens, sua petulância cresceria, se bem que não até estourar, contudo até as manifestações desenfreadas da loucura, mesmo do delírio. Inclusive cada um necessita sempre de um certo quantum de preocupação, ou dor, ou necessidade, como o navio de lastro para navegar de modo ereto e firme.
Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda a vida a sorte da maioria das pessoas. Porém se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com que se gastaria o tempo? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo crescesse sem ser plantado, as pombas revoassem já assadas, e cada um encontrasse logo e sem dificuldade sua bem-amada. Ali em parte os homens morrerão de tédio ou se enforcarão, em parte promoverão guerras, massacres e assassinatos, para assim se proporcionar mais sofrimento do que o posto pela natureza. Portanto, para uma tal espécie, como a humana, nenhum outro palco se presta, nenhuma outra existência.

§156
(...)
Ninguém é mui invejável, mui deploráveis são muitos.
A vida constitui uma tarefa a ser realizada: neste sentido defunctuns é uma bela expressão.
Imaginemos que o ato da procriação não fosse uma necessidade, nem acompanhado de prezer, mas um assunto de pura reflexão racional: a humanidade então ainda subsistiria? Não possuiria, pelo contrário, cada um compaixão suficiente para com a geração vindoura, a ponto de lhe poupar o fardo da existência, ou ao menos não lhe impor o mesmo a sangue-frio?
Pois o mundo constitui o inferno, e os homens formam em parte os atormentados, e noutra, os demônicos.
(...)
De fato, a convicção de que o mundo, e portanto também o homem, é algo que propriamente não deveria ser, é adequada a nos prover de tolerância uns em relação aos outros: pois o que há de se esperar de seres sob tais predicamentos? E mesmo partindo deste ponto de vista, poder-se-ia pensar que o tratamento apropriado entre os homens, em lugar de MonsieurSir etc., deveria ser "companheiro de infortúnio, soci malorumcompagnon de misèresmy fellow-sufferer". Por mais estranho que possa parecer, corresponde à coisa, lança sobre o outro a luz apropriada e recorda o necessário, a tolerância, paciência, piedade, amor ao próximo, indispensável a todos, e portanto de que todos são devedores.

§156 a
(...)
Pardon is the word to all (Cymbeline a. 5, sc. 5). Com qualquer estupidez, falha, vício humano, deveríamos ser tolerantes, pensando que o que temos diante de nós é somente nossa própria estupidez, falha, vício: pois trata-se dos erros da humanidade, a que também nós pertencemos, possuindo em conseqüência também todas as falhas, mesmo aquelas sobre que nos indignamos, apenas porque justamente agora não se manifestam em nós, pois não se encontram à superfície, mas repousam ao fundo, e se apresentarão ao primeiro motivo, precisamente como agora os observamos no outro; apesar de em um se ressaltar um certo tipo, em outro, um distinto, ou de não se poder negar que a medida total de todas as propriedades más em um é bem maior do que em outro. Pois a diferença das individualidades é inavaliavelmente grande.

____________________


Eu tinha preparado algo antes disso tudo, mas resolvi apagar. Mas o trecho que retirei dos escritos filosóficos de Schopenhauer faz parte da idéia original.

O meu gosto por escrever crônicas e textos parecidos está acabando. Penso em, a partir de agora, apenas postar traduções e trechos de obras. Nada de primeira pessoa daqui pra frente. Vamos ver no que dá.

Nenhum comentário: