segunda-feira, 26 de julho de 2010

Pensamentos de Dogen Zenji sobre o Budismo e a mortalidade.

(Traduzido do inglês por Sérgio Barroso)
(Revisado em 11.02.11)



Questão 10. O seguinte já foi dito:

"Não te lamentes pela mortalidade;¹ há uma escapatória, que é perceber a natureza eterna do espírito. Assim como o corpo nasceu, ele morrerá, mas não o espírito. Percebe que o espírito imortal existe dentro de ti, e que aí está tua natureza essencial, sendo o corpo apenas uma morada temporária, efêmera, morrendo aqui, renascido lá. A mente continua imutável através do passado, presente e futuro. Compreender isto é libertar-se da mortalidade. Aqueles que o fazem dão fim à vida e morte do passado e, quando desprendem-se de sua forma mortal, entram no oceano da natureza. Assim que o fazem, certamente são imbuídos com as mesmas virtudes sagradas dos anjos. Aqueles que ainda não aprenderam este princípio estão condenados a repetir sua experiência de mortalidade para sempre."

Isto só pode significar que o que realmente importa é perceber [admitir] que todos nós temos uma alma imortal. O que se ganha ao gastar tempo sentado em uma almofada? Esta linha de pensamento concorda com o caminho dos budas e dos patriarcas?



Resposta 10. De forma nenhuma. Essa é a heresia de Senika.² A heresia afirma que dentro de nossos corpos há uma espécie de inteligência fantasma,³ que sabe diferenciar o bom do ruim, o certo do errado. A habilidade de sentir dor e prazer, sofrimento e contentamento se deveria a esta inteligência fantasma. E mais, tal natureza fantasmagórica poderia escapar de um corpo morto e renascer em outro. Quando achamos que o corpo está morrendo, o espírito consegue renascer em outro lugar e subsiste por toda a eternidade.

É isso que a heresia diz.

Acreditar em tal tolice e chamá-la de buddhadharma [Dharma Budista] é mais insensato do que catar pedras e acreditar que são joias. É tão estúpido que não posso fazer outra analogia. Echu,⁴ o mestre que educou um imperador da Dinastia Tang, criticava veementemente essa falácia. Quão ignorante é - elevar ao nível da sutil verdade de Buda a crença de que o espírito permanece e o corpo perece. Você está promovendo a causa primeira da mesma mortalidade de que tenta escapar. É digno de pena. Saiba que isso é pura heresia e não lhe dê atenção.

Permita-me observar que para se enxergar através dessa heresia você precisa saber que ensinamos que no Dharma Budista corpo e mente estão unidos intrinsecamente, sua natureza e seu aspecto indivisíveis - é um princípio inabalável em toda a China e Índia. Se uma religião prega que as coisas são permanentes, então tudo é permanente, tornando impossível separar-se corpo e mente. Se uma religião prega que as coisas são evanescentes, então tudo é evanescente, tornando impossível separar natureza e aspecto.⁵ Em qualquer caso não pode ser verdade que o corpo pereça enquanto o espírito sobrevive. Que fique claro também que a mortalidade é nirvana. O nirvana nunca foi discutido fora do contexto da mortalidade. Pense a respeito: sua mente - que tenta alcançar uma suposta sabedoria budista mas despreza a mortalidade, que espera que uma alma imortal se desprenda do seu corpo - ainda é uma mente dotada de compreensão e percepção que é, ela mesma, objeto da mortalidade, violando assim o preceito da eternidade. Quem pode negar isto?

Observe atentamente, e você verá que as religiões verdadeiras sempre ensinaram que o corpo e a alma estão unificados. Então, por que razão a alma deveria destacar-se do corpo e sobreviver enquanto o corpo morre? Isto implicaria que corpo e alma estão unidos algumas vezes, mas não todas as vezes, tornando todas essas religiões grandes farsas. Aqueles que pensam que a ideia é eliminar a mortalidade são culpados de odiar o Budismo. Devemos ter cuidado com tais afirmações.

Você deveria conhecer a escola de pensamento budista chamada Aspecto Universal da Natureza da Mente,⁶ que prega que por todo o reino do dharma, em toda a sua vastidão, é impossível separar natureza e aspecto ou distinguir vida e morte. Nada, nem mesmo a compreensão e o nirvana, está fora da natureza da mente. Todas as coisas e fenômenos compartilham essa mente, nada está excluído, nada está desconectado. Há muitas escolas de pensamento budistas, mas todas defendem que a mente é uniformemente singular. Os ensinamentos budistas são conhecidos por sua insistência em afirmar que distinções de mente não existem.

Tentar ainda assim distinguir corpo e mente, ou separar a vida do nirvana, é impossível. Todos nascemos como filhos de Buda, e não devemos dar ouvidos àquilo que filósofos não-budistas dizem.


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¹ seishi, lit. "vida-morte". Tem uma variedade de nuances dependendo do contexto, mas o foco neste caso é sobre nascimento e morte.
² Senika é um filósofo indiano que viveu na mesma época de Gautama.
³ rei-chi
Nanyo Echu
o tradutor original acredita que Dogen pretendia afirmar que pregar permanência é tão limitador e contraditório quanto pregar evanescência.
"portal do dharma do vasto total aspecto da essência da mente" 心性大総相の法門, citação de Daijo Kishin Ron 大乗起心論 (Despertar da fé de Mahayana).


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First Dogen book: selected essays from Dogen Zenji's Shobogenzo. Organizado e traduzido para inglês por Bob Myers. Distribuído sob a licença Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 United States. Disponível em: http://www.bob.myers.name/dogen/

Um comentário:

Mara Vanessa disse...

É uma área pela qual eu, definitivamente, não me arrisco.