terça-feira, 18 de setembro de 2012

Estima pela Retidão

Mozi - Book 12 《貴義 - Esteem for Righteousness》

Mozi - Livro 12 (Estima pela Retidão)



Disponível em: Cultural China


貴義:
子墨子曰:「萬事莫貴於義。今謂人曰:『予子冠履,而斷子之手足,子為之乎?』必不為,何故?則冠履不若手足之貴也。又曰:『予子天下而殺子之身,子為之乎?』必不為,何故?則天下不若身之貴也。爭一言以相殺,是貴義於其身也。故曰,萬事莫貴於義也。」

1: Esteem for Righteousness:
Mozi said: Of the multitude of things none is more valuable than righteousness. Suppose we say to a person: We shall give you a hat and shoes on condition you let us cut off your hands and feet. Would he agree to this? Of course, he will not agree. Why? Just because hats and shoes are not so valuable as hands and feet. Again (if we say), we shall give you the whole world on condition you let us kill you. Would he agree to this? Of course he will not agree. Why? Just because the world is not so valuable as one's person. Yet people have struggled against one another for a single principle. This shows righteousness is even more valuable than one's person. Hence we say, of the multitude of things none is more valuable than righteousness.

1: Estima pela Retidão:
Mozi disse: Dentre a multitude de coisas, nenhuma é mais valiosa que a retidão. Suponha que digamos a uma pessoa: Daremos-te um chapéu e sapatos, contanto que nos deixe cortar teus pés e tuas mãos. Ela concordaria com isso? Claro que não concordaria. Por quê? Apenas porque chapéus e sapatos não são tão valiosos quanto mãos e pés. Outra vez (se dissermos), daremos-te o mundo inteiro, contanto que nos permita matar-te. Ela concordaria com isso? Claro que não concordaria. Por quê? Apenas porque o mundo não é tão valioso quanto a própria pessoa. Ainda assim, pessoas confrontaram-se por um único princípio. Isso mostra que a retidão é bem mais valiosa que a própria pessoa. Assim, dizemos: da multitude de coisas, nenhuma é mais valiosa que a retidão.

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Ofereço agora uma interpretação para os trechos: "Apenas porque o mundo não é tão valioso quanto a própria pessoa" e "Isso mostra que a retidão é bem mais valiosa que a própria pessoa". Na tradução para língua inglesa de W. P. Mei (disponível neste link), a idéia de personalidade (one's person) parece dizer respeito à integridade da vida. Uma tradução mais adequada poderia ser: "Apenas porque o mundo não é tão valioso quanto a própria vida" ou "(...) quanto a vida de uma pessoa", e "Isso mostra que a retidão é bem mais valiosa que a própria vida" etc.

A justificação para essa retidão - essa inspiração para o caminho correto - é engenhosamente demonstrada por Mozi a partir do valor intrínseco dado à vida. Não se pode gozar o domínio do mundo se não for mais possível viver nele. Em um trecho posterior do livro 12, Mozi ilustra tal argumento com o que acredito ser uma alegoria:

「今有人於此,有子十人,一人耕而九人處,則耕者不可以不益急矣。何故?則食者眾,而耕者寡也。今天下莫為義,則子如勸我者也,何故止我?」

Suppose a man has ten sons. Only one attends to the farm while the other nine stay at home. Then the farmer must work all the more vigorously. Why? Because many eat while few work. Now, none in the world practises righteousness. Then you should all the more encourage me. Why do you stop me?

Suponha que um homem tem dez filhos. Apenas um cuida da fazenda enquanto os outros nove ficam em casa. Por isso mesmo o fazendeiro deve trabalhar com muito mais vigor. Por quê? Porque muitos comem enquanto poucos trabalham. Ninguém no mundo pratica a retidão. Por isso mesmo tu deverias encorajar-me. Por que me impedes?

Se o fazendeiro desistisse de trabalhar na terra estaria fazendo uma opção análoga à da conquista do mundo em troca da própria morte - não é uma opção razoável. A retidão é, assim, o que nos sustenta, e sustenta inclusive aqueles que não procuram viver em retidão. Ela é pressuposto para a preservação da vida e justamente por isso é mais importante que a própria vida.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Leitura livre (III)

Stéphane MALLARMÉ
première parution : 12 mai 1866
De l’éternel azur la sereine ironie 
Accable, belle indolemment comme les fleurs, 
Le poëte impuissant qui maudit son génie. 
À travers un désert stérile de Douleur

Fuyant, les yeux fermés, je le sens qui regarde 
Avec l’intensité d’un remords atterrant, 
Mon âme vide. Où fuir ? Et quelle nuit hagarde 
Jeter, lambeaux, jeter sur ce mépris navrant ?

Brouillards, montez ! versez vos cendres monotones 
Avec de longs haillons de brume dans les cieux 
Que noiera le marais livide des automnes 
Et bâtissez un grand plafond silencieux !

Et toi, sors des étangs léthéens et ramasse 
En t’en venant la vase et les pâles roseaux, 
Cher Ennui, pour boucher d’une main jamais lasse 
Les grands trous bleus que font méchamment les oiseaux.

Encor ! que sans répit les tristes cheminées 
Fument, et que de suie une errante prison 
Éteigne dans l’horreur de ses noires traînées 
Le soleil se mourant jaunâtre à l’horizon !

― Le Ciel est mort. ― Vers toi, j’accours ! Donne, ô matière, 
L’oubli de l’Idéal cruel et du Péché 
À ce martyr qui vient partager la litière 
Où le bétail heureux des hommes est couché,

Car j’y veux, puisque enfin ma cervelle, vidée 
Comme le pot de fard gisant au pied d’un mur, 
N’a plus l’art d’attifer la sanglotante idée, 
Lugubrement bâiller vers un trépas obscur...

En vain ! l’Azur triomphe, et je l’entends qui chante 
Dans les cloches. Mon âme, il se fait voix pour plus 
Nous faire peur avec sa victoire méchante, 
Et du métal vivant sort en bleus angelus !

Il roule par la brume, ancien et traverse 
Ta native agonie ainsi qu’un glaive sûr ; 
Où fuir dans la révolte inutile et perverse ? 
Je suis hanté. L’Azur ! l’Azur ! l’Azur ! l’Azur !


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Stéphane MALLARMÉ
première parution : 12 mai 1866


Brise marine
La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres. 
Fuir ! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres 
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux ! 
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux 
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe 
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe 
Sur le vide papier que la blancheur défend 
Et ni la jeune femme allaitant son enfant. 
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture, 
Lève l’ancre pour une exotique nature ! 
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs, 
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs ! 
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages 
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages 
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots... 
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots !


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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Leitura livre (II)




"Os anormais" (Michel Foucault)


Aula de 12 de fevereiro de 1975

Fiquei com um medo que talvez seja meio obsessivo: tive a impressão, uns dias atrás - lembrando-me do que lhes disse da última vez a propósito da mulher de Sélestat, sabem, a que tinha matado a filha, cortado e comido a perna dela com repolho -, de lhes ter dito que ela havia sido condenada. Lembram-se? Não? Eu disse que ela tinha sido absolvida? Também não? Não disse nada? Pelo menos, disse alguma coisa a seu respeito? Bem, se eu tivesse dito que ela tinha sido condenada, teria sido um erro: ela foi absolvida. 

(...)


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"Asinaria" (Plauto)


Ato 2
Cena 4

(...)

Leonida
(...) Você insulta outras pessoas e não admite ser insultado? Sou um homem tanto quanto você é.

Vendedor de asnos
Certamente, é dessa forma.

Leonida
Acompanhe-me, então. Com sua permissão afirmo: nenhuma pessoa sequer acusou-me justamente de infâmia, nem há hoje em Atenas pessoa mais confiável que eu.

Vendedor de asnos
Talvez: mas ainda assim, hoje não será possível convencer-me a confiar este dinheiro a você, pois não o conheço. Um homem é um lobo para outro [lupus est homo homini], não um homem, quando um não conhece o caráter do outro.

(...)


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"Os anormais" (Michel Foucault) - continuação


(...)

Eu achei que tinha lhes dito (o que teria sido um erro) que ela havia sido condenada por ser um período de fome e porque ela era miserável; nessa medida, ela tinha interesse em comer a filha, porque não tinha mais nada para pôr na boca. Esse argumento foi de fato empregado e quase influiu na decisão, mas ela acabou sendo absolvida. E foi absolvida em função do seguinte fato, que foi sustentado pelos advogados: que ainda havia mantimentos no seu armário e que, por conseguinte, ela não tinha tanto interesse assim em comer a filha; que ela teria podido comer toucinho antes de comer a filha, que o sistema de interesses não agia. Em todo caso, a partir disso, ela foi "absolvida". Se cometi um erro, desculpem-me. A verdade ficou estabelecida, ou restabelecida.


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"Além do bem e do mal" (Friedrich Nietzsche)


Quinta parte - aforismos e intermédios

83:
O instinto - Quando a casa arde, esquece-se até o almoço. Sim; mas logo se aproveitam as cinzas.